Critérios para encaminhamento ao nefrologista: quando a atenção especializada muda o prognóstico renal
Uma das decisões mais frequentes no cuidado da Doença Renal Crônica parece simples, mas permanece sujeita a dois erros opostos. De um lado, pacientes são encaminhados tardiamente, quando complicações da DRC já estão estabelecidas e resta pouco tempo para esclarecer etiologia, implementar terapias modificadoras de progressão ou planejar uma eventual terapia renal substitutiva. De outro, encaminhar indiscriminadamente toda redução discreta da taxa de filtração glomerular para a nefrologia pode sobrecarregar serviços especializados sem necessariamente acrescentar benefício clínico proporcional.
O problema está justamente em definir quem realmente se beneficia do especialista, em qual momento e com qual objetivo.
Durante muitos anos, a resposta foi estruturada predominantemente pela TFGe. Valores inferiores a 30 mL/min/1,73 m² passaram a funcionar como um limiar clássico de referência para encaminhamento. Esse critério continua importante, inclusive no sistema brasileiro, mas deixou de ser suficiente diante da evolução da estratificação de risco. A KDIGO 2024 recomenda integrar à decisão fatores como etiologia incerta, albuminúria, hematúria, velocidade de progressão, hipertensão resistente, alterações persistentes de potássio e complicações metabólicas, além de incorporar explicitamente o risco calculado de falência renal.
Essa mudança é conceitualmente relevante. Dois pacientes com TFGe de 38 mL/min/1,73 m² podem ter necessidades completamente diferentes. Um apresenta função estável, albuminúria mínima e etiologia já esclarecida; o outro tem UACR de 1.200 mg/g, hematúria, declínio rápido e hipertensão resistente. Embora pertençam à mesma categoria de TFGe, o segundo reúne múltiplas razões para avaliação especializada muito antes de atingir G4.
O Manual de Diálise também fornece a base para essa interpretação ao enfatizar que o acompanhamento da DRC deve considerar causa, velocidade de progressão, complicações e preparação oportuna para terapia renal substitutiva, em vez de se limitar à observação de um valor isolado de função renal.
Portanto, discutir critérios para encaminhamento ao nefrologista em 2026 significa avançar de um modelo centrado apenas no estágio para outro baseado em complexidade diagnóstica, velocidade de progressão, risco absoluto e necessidade de intervenção especializada.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista não deveriam começar apenas pela TFGe
A TFGe permanece um dos marcadores mais importantes da função renal, mas seu significado clínico depende do contexto.
Uma TFGe persistentemente inferior a 30 mL/min/1,73 m² continua representando um critério forte para participação da nefrologia, tanto nas recomendações internacionais quanto na organização brasileira da linha de cuidado. O Ministério da Saúde orienta encaminhamento especializado para pacientes nos estágios 4 e 5, enquanto a KDIGO inclui baixa TFGe entre as circunstâncias que justificam avaliação por especialista. ([Linhas de Cuidado][1])
Entretanto, utilizar esse limiar como única porta de entrada cria inevitavelmente encaminhamentos tardios.
Um indivíduo com glomerulopatia rapidamente progressiva pode perder função renal substancial muito antes de atingir 30 mL/min/1,73 m². Da mesma maneira, um paciente jovem com albuminúria maciça e doença renal hereditária pode necessitar de investigação especializada mesmo com TFGe preservada.
Por outro lado, uma pessoa idosa com TFGe estável em torno de 48 mL/min/1,73 m², albuminúria mínima, ausência de complicações e baixo risco de progressão pode ser acompanhada adequadamente em atenção primária ou clínica geral, desde que exista vigilância estruturada.
Consequentemente, a pergunta adequada não é “qual TFGe obriga encaminhamento?”, mas “qual combinação de achados indica que a contribuição do nefrologista pode modificar diagnóstico, prognóstico ou tratamento?”
Critérios para encaminhamento ao nefrologista incorporaram o risco absoluto de falência renal
A KDIGO 2024 trouxe uma das mudanças mais importantes nessa área ao recomendar o uso de equações externamente validadas para estimar risco absoluto de falência renal em pacientes com DRC G3–G5. A diretriz estabelece que um risco em cinco anos de aproximadamente 3% a 5% pode ser utilizado como limiar adicional para considerar encaminhamento à nefrologia.
Essa recomendação desloca a lógica de uma fotografia estática para uma estimativa prognóstica.
A Kidney Failure Risk Equation, em sua versão de quatro variáveis, utiliza idade, sexo, TFGe e relação albumina/creatinina urinária para estimar risco de necessidade de terapia renal substitutiva em horizontes definidos. Como consequência, pessoas classificadas na mesma categoria de TFGe podem receber estimativas prognósticas substancialmente diferentes.
Essa diferença importa porque recursos especializados são limitados. A própria KDIGO reconhece que poucos sistemas possuem capacidade para que todos os pacientes com DRC sejam acompanhados por nefrologistas e sugere que ferramentas prognósticas podem ajudar a direcionar o cuidado especializado àqueles com maior probabilidade de se beneficiar.
Entretanto, a equação não deve substituir o julgamento clínico.
A KDIGO ressalta que modelos como o KFRE foram desenvolvidos para determinadas populações, principalmente DRC G3–G5, e podem não ser apropriados em DRC G1–G2, LRA ou AKD. Além disso, alterações recentes de TFGe ou albuminúria podem distorcer o risco calculado se ainda não representarem um novo estado clínico estável.
Portanto, risco absoluto amplia a precisão do encaminhamento, mas não elimina critérios etiológicos e clínicos.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista precisam diferenciar avaliação especializada de cuidado multiprofissional avançado
Encaminhar ao nefrologista e inserir o paciente em um programa multidisciplinar de DRC avançada não representam necessariamente a mesma decisão.
A KDIGO 2024 propõe limiares diferentes conforme a finalidade. Um risco de falência renal em cinco anos de 3%–5% pode apoiar encaminhamento à nefrologia; entretanto, um risco superior a 10% em dois anos pode ajudar a definir o momento de cuidado multiprofissional mais intensivo. Já um risco acima de 40% em dois anos pode orientar educação sobre modalidades, preparação para terapia renal substitutiva, planejamento de acesso vascular e encaminhamento para transplante, sempre em conjunto com outros critérios clínicos.
Essa estratificação evita dois erros.
O primeiro é enviar precocemente todos os pacientes para clínicas de DRC avançada apenas com base em TFGe. O segundo é esperar um estágio crítico de perda funcional para iniciar educação sobre transplante, diálise peritoneal ou acesso vascular.
Assim, critérios para encaminhamento ao nefrologista também precisam responder à finalidade da referência: esclarecer diagnóstico, otimizar nefroproteção, tratar complicações ou preparar o paciente para falência renal.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista precisam valorizar albuminúria importante
Albuminúria elevada altera profundamente o prognóstico renal e cardiovascular, mesmo quando a TFGe ainda está relativamente preservada.
A KDIGO 2024 inclui entre as circunstâncias para encaminhamento um achado consistente de ACR >700 mg/g, equivalente a >70 mg/mmol, além de albuminúria significativa associada à hematúria e aumento de pelo menos duas vezes da albuminúria em indivíduos que já apresentavam níveis relevantes durante o acompanhamento.
O NICE utiliza raciocínio semelhante, recomendando avaliação especializada diante de ACR ≥70 mg/mmol, salvo determinados casos de doença claramente relacionada ao diabetes e já adequadamente manejada, além de indicar encaminhamento quando ACR >30 mg/mmol ocorre juntamente com hematúria. ([Nice][2])
Esse ponto merece atenção porque ainda existe tendência a aguardar redução da TFGe antes de valorizar proteinúria ou albuminúria.
Em doenças glomerulares, entretanto, uma carga proteica expressiva pode aparecer muito antes da perda funcional. Além disso, albuminúria importante pode indicar necessidade de investigação etiológica, ajuste de nefroproteção e avaliação de condições potencialmente tratáveis.
No Brasil, o Ministério da Saúde também inclui proteinúria entre os critérios de encaminhamento para nefrologia. ([Linhas de Cuidado][1])
Portanto, albuminúria não deve funcionar apenas como marcador prognóstico documentado no prontuário. Em determinados níveis e contextos, ela constitui um motivo de referência especializada.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista devem tratar hematúria como marcador etiológico, e não apenas como achado laboratorial
Hematúria persistente apresenta diagnóstico diferencial amplo. Ela pode decorrer de doença glomerular, litíase, alterações urológicas, neoplasia, infecção ou outras condições. Portanto, nem toda hematúria pertence automaticamente à nefrologia.
Entretanto, quando ocorre juntamente com albuminúria significativa, cilindros hemáticos, dismorfismo eritrocitário ou perda de função renal, a probabilidade de doença glomerular aumenta e o valor do encaminhamento precoce cresce substancialmente.
A KDIGO inclui cilindros hemáticos ou mais de 20 hemácias por campo de grande aumento, de forma persistente e não explicada, entre as circunstâncias que justificam avaliação especializada. Também destaca albuminúria importante associada à hematúria.
Da mesma maneira, o Ministério da Saúde brasileiro inclui hematúria persistente e cilindros urinários patológicos entre os critérios de encaminhamento. ([BVSMS][3])
Nesse cenário, a finalidade da nefrologia não é simplesmente repetir exames. É definir se existe doença glomerular potencialmente tratável, necessidade de investigação imunológica, biópsia renal ou outra abordagem específica.
Além disso, hematúria macroscópica ou persistente em determinados grupos pode exigir avaliação urológica paralela, particularmente quando existe suspeita de neoplasia. Portanto, a presença de sangue na urina pode demandar mais de uma linha diagnóstica.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista precisam identificar progressão acelerada antes da DRC avançada
Velocidade de declínio da função renal é um marcador de risco independente do estágio atual.
O NICE define progressão acelerada em adultos como redução sustentada da TFGe de pelo menos 25% acompanhada por mudança de categoria em 12 meses ou queda sustentada de pelo menos 15 mL/min/1,73 m² ao ano. Esses critérios também justificam encaminhamento especializado. ([Nice][2])
No Brasil, a linha de cuidado do Ministério da Saúde utiliza um critério operacional diferente para perda rápida: queda superior a 5 mL/min/1,73 m² em seis meses em indivíduo com TFGe <60 mL/min/1,73 m², confirmada por avaliações seriadas. ([Linhas de Cuidado][1])
As diferenças entre protocolos mostram por que o médico não deveria tratar um único ponto de corte como verdade universal. O princípio clínico é reconhecer trajetórias incompatíveis com a evolução esperada.
Antes de atribuir uma queda da TFGe à progressão crônica, é necessário excluir variação analítica, mudança hemodinâmica após início de medicações, LRA sobreposta, obstrução, desidratação e outras causas reversíveis.
Entretanto, quando a tendência é confirmada, esperar que a TFGe alcance 30 mL/min/1,73 m² pode consumir uma janela terapêutica importante.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista precisam considerar etiologia incerta ou doença renal potencialmente tratável
Talvez o maior valor da avaliação nefrológica em fases relativamente precoces esteja justamente no diagnóstico etiológico.
Uma DRC rotulada como “hipertensiva” ou “diabética” pode esconder glomerulopatia, doença hereditária, nefropatia tubulointersticial, doença sistêmica ou outra causa específica.
A KDIGO 2024 inclui etiologia de DRC incerta e suspeita de doenças específicas ou hereditárias entre os motivos para encaminhamento e enfatiza que um dos objetivos centrais da referência é estabelecer um diagnóstico quando apropriado e oferecer tratamento específico.
O mesmo raciocínio aparece no NICE, que recomenda encaminhamento quando existem causas raras ou genéticas conhecidas ou suspeitas. ([Nice][2])
Esse critério ganhou relevância adicional com a expansão dos testes genéticos e das terapias dirigidas a algumas doenças renais.
Portanto, em um paciente jovem com DRC sem etiologia clara, história familiar, cistos, surdez, alterações oculares ou manifestação extrarrenal, o encaminhamento não deve aguardar progressão para estágios avançados.
A pergunta central é se o diagnóstico especializado pode modificar prognóstico, aconselhamento familiar, rastreamento de parentes, terapia ou elegibilidade para transplante.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista incluem hipertensão resistente
Hipertensão e DRC frequentemente coexistem, mas determinados padrões pressóricos sugerem necessidade de investigação mais complexa.
A KDIGO inclui DRC associada a hipertensão refratária apesar de quatro ou mais agentes anti-hipertensivos entre as circunstâncias para encaminhamento. O NICE utiliza um critério semelhante, recomendando avaliação especializada quando a pressão permanece acima da meta individual apesar de pelo menos quatro medicamentos em doses terapêuticas. ([Nice][2])
Antes de classificar o quadro como resistente, entretanto, é necessário revisar adesão, técnica de aferição, efeito do avental branco, sódio, volume, medicamentos interferentes e causas secundárias.
Na DRC, a sobrecarga volêmica frequentemente participa do problema. Além disso, doença renovascular, hiperaldosteronismo e apneia obstrutiva do sono podem coexistir.
Consequentemente, o encaminhamento tem dois objetivos: otimizar tratamento da DRC e investigar causas que não estão sendo explicadas adequadamente pelo diagnóstico atual.

Critérios para encaminhamento ao nefrologista precisam reconhecer distúrbios eletrolíticos e ácido-básicos persistentes
Alterações de potássio e equilíbrio ácido-básico podem refletir diminuição da reserva renal, efeitos medicamentosos, doença tubular ou outras condições.
A KDIGO 2024 inclui anormalidades persistentes do potássio sérico e acidose entre as circunstâncias que justificam avaliação especializada. Essa indicação não depende necessariamente de uma TFGe muito baixa.
Hipercalemia recorrente em paciente utilizando terapias cardiorrenais pode exigir uma estratégia capaz de preservar medicamentos benéficos enquanto se corrige o potássio. Por outro lado, hipocalemia inexplicada pode levantar suspeita de distúrbios tubulares ou endócrinos.
Acidose metabólica desproporcional à função renal também merece investigação etiológica.
Portanto, o encaminhamento não acontece apenas porque “o rim está pior”. Pode ocorrer porque um distúrbio bioquímico exige conhecimento específico da fisiologia renal para ser corretamente interpretado.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista incluem complicações da DRC que ultrapassam o manejo habitual
À medida que a DRC progride, anemia, distúrbio mineral e ósseo, acidose, hiperpotassemia e desnutrição tornam-se mais prevalentes.
A KDIGO inclui anemia, doença óssea e desnutrição entre os motivos de encaminhamento, sobretudo quando aparecem dentro de um contexto de DRC e exigem avaliação especializada.
No Brasil, a linha de cuidado estabelece que pacientes com TFGe <60 mL/min/1,73 m² associados a complicações como anemia refratária, hipercalemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, elevação persistente de PTH ou hipertensão resistente devem ser encaminhados para nefrologia. ([Linhas de Cuidado][1]) Nesse ponto, a participação do especialista não deve ser vista como substituição do cuidado primário.
O médico que acompanha o paciente continua responsável por hipertensão, diabetes, risco cardiovascular e demais condições, enquanto a nefrologia agrega avaliação das complicações específicas e da progressão.
Essa complementaridade é particularmente importante porque pacientes com DRC avançada frequentemente apresentam polifarmácia e múltiplas especialidades envolvidas.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista precisam reconhecer alterações anatômicas e doença estrutural
Doença renal não é definida apenas por alterações laboratoriais. Assimetria renal, doença policística, anomalias estruturais, suspeita de estenose de artéria renal e outras alterações podem justificar avaliação especializada conforme a repercussão funcional e o contexto clínico. A linha de cuidado brasileira inclui alterações anatômicas capazes de provocar lesão ou perda da função renal entre os critérios de referência. ([Linhas de Cuidado][1])
Entretanto, a especialidade de destino pode variar. Obstrução urinária, massas e determinadas anomalias do trato urinário podem demandar urologia, enquanto doenças císticas hereditárias, anormalidades parenquimatosas e suspeita de renovascular frequentemente exigem participação nefrológica.
Portanto, o exame de imagem deve ser interpretado dentro de uma pergunta clínica, e não apenas anexado ao encaminhamento.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista precisam distinguir DRC de LRA e AKD
Uma redução recente da função renal não deveria ser automaticamente classificada como DRC e encaminhada dentro de um fluxo eletivo.
Se a creatinina se elevou em dias ou semanas, o problema pode representar LRA ou doença renal aguda e exigir uma velocidade de resposta completamente diferente.
O NICE recomenda discussão com nefrologia em até 24 horas diante de LRA sem causa clara, resposta inadequada ao tratamento, complicações, estágio 3 ou suspeita de doenças como vasculite, glomerulonefrite, nefrite tubulointersticial ou mieloma. Além disso, indica encaminhamento imediato quando existem critérios para terapia renal substitutiva. ([Nice][4])
Esse ponto evita outro erro frequente: solicitar uma consulta ambulatorial de rotina para alguém cuja trajetória renal exige avaliação aguda.
Assim, antes de aplicar critérios para encaminhamento ao nefrologista próprios da DRC, o médico precisa confirmar se está realmente diante de uma condição crônica estável.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista precisam antecipar planejamento para terapia renal substitutiva
Encaminhamento tardio exerce consequências que vão além da perda de oportunidades terapêuticas.
Quando o paciente chega à nefrologia próximo da necessidade de diálise, frequentemente existe pouco tempo para educação sobre modalidades, avaliação para transplante, decisão compartilhada e criação de acesso definitivo. O resultado pode ser início não planejado por cateter venoso central.
A KDIGO 2024 propõe que risco de falência renal em dois anos superior a 40% seja utilizado como um dos elementos para definir educação sobre modalidades, planejamento de acesso vascular ou encaminhamento para transplante. A diretriz também destaca que esperar uma TFGe abaixo de 15 mL/min/1,73 m² pode levar a utilização excessiva de cateteres, enquanto preparar todos os pacientes G4 produziria muitos acessos nunca utilizados.
Esse modelo conecta diretamente prognóstico à preparação. O objetivo é que a transição para falência renal ocorra como consequência de um plano, e não como resposta improvisada a uma internação.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista não significam que todo paciente referido precise permanecer indefinidamente na especialidade
Uma avaliação especializada pode responder a uma questão específica e posteriormente devolver parte do seguimento ao médico de origem.
O NICE explicita essa possibilidade ao recomendar que, após a referência, seja estabelecido um plano de cuidado e, quando apropriado, o acompanhamento rotineiro retorne à atenção primária com critérios claros para nova referência. Também permite discussão remota com especialista quando existe dúvida clínica, mas não necessariamente necessidade de consulta presencial. ([Nice][2])
Esse modelo é particularmente relevante em sistemas com capacidade limitada. Um nefrologista pode esclarecer etiologia, definir uma estratégia terapêutica e estabelecer critérios de reavaliação, enquanto o acompanhamento longitudinal acontece em atenção primária ou com outro especialista.
No Brasil, a linha de cuidado também prevê matriciamento da atenção primária pela nefrologia e consulta compartilhada como alternativas dentro da rede. ([Linhas de Cuidado][1]) Portanto, encaminhar não deveria significar transferir integralmente a responsabilidade. Em muitos casos, significa adicionar expertise à trajetória de cuidado.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista precisam considerar o contexto brasileiro de acesso à especialidade
Diretrizes internacionais partem de sistemas de saúde com diferentes densidades de nefrologistas, modelos de regulação e tempos de espera.
A própria KDIGO reconhece que limiares de risco precisam ser adaptados à disponibilidade local de especialistas e aos tempos aceitáveis de espera.
No SUS, o acesso à atenção especializada depende de protocolos regulatórios organizados por estados e municípios, enquanto a atenção básica permanece como coordenadora da linha de cuidado. O Ministério da Saúde estabelece que pacientes com suspeita ou diagnóstico de DRC sejam estratificados e referenciados conforme gravidade e critérios locais, mantendo a integração entre APS e atenção especializada. ([Serviços e Informações do Brasil][5])
Isso significa que critérios científicos e critérios operacionais não são sempre idênticos. Um paciente pode ter indicação clínica de discussão com nefrologista mesmo quando não preenche imediatamente a prioridade máxima da regulação local. Nesse cenário, teleconsultoria, matriciamento e contato entre profissionais podem reduzir o intervalo até uma decisão especializada.
Portanto, um bom sistema não pergunta apenas “quem deve ser encaminhado?”, mas também como levar conhecimento nefrológico ao paciente antes que uma consulta presencial esteja disponível.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista precisam incluir informações suficientes para tornar a consulta produtiva
Um encaminhamento que informa apenas “creatinina alta” transfere ao especialista a necessidade de reconstruir toda a trajetória desde o início.
O Ministério da Saúde recomenda que o documento de referência inclua creatinina sérica com data, avaliações seriadas quando houver suspeita de perda rápida, albuminúria ou proteinúria, EAS e exames de imagem quando disponíveis, além de informações clínicas relevantes. ([Linhas de Cuidado][1])
Em termos práticos, a qualidade aumenta quando o encaminhamento também esclarece temporalidade, doenças associadas, medicamentos, pressão arterial, motivo clínico da referência e exames anteriores que permitam estimar a velocidade de mudança da função renal.
Se existe hematúria, informar se é persistente e se há proteinúria concomitante ajuda. Se o motivo é hiperpotassemia, conhecer medicações e tendência da TFGe modifica imediatamente o raciocínio.
A consulta especializada começa antes de o paciente entrar no consultório. Um encaminhamento bem estruturado permite que o tempo seja utilizado para decisões, e não apenas para reconstrução de informações já disponíveis em outro ponto da rede.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista devem evitar o conceito de “creatinina normal” como garantia de baixo risco
A creatinina isolada apresenta limitações conhecidas relacionadas à massa muscular, idade e sexo.
Uma pessoa idosa e sarcopênica pode manter creatinina aparentemente modesta mesmo com redução importante da filtração. Da mesma forma, doença renal glomerular pode produzir albuminúria significativa antes que a creatinina se altere substancialmente.
Por isso, rastreamento e decisão de encaminhamento devem utilizar TFGe e albuminúria, além de outros marcadores quando clinicamente apropriados.
Esse princípio também evita que pacientes jovens com doenças glomerulares sejam falsamente tranquilizados por uma creatinina ainda dentro do intervalo de referência.
Assim, o nefrologista não deveria ser considerado apenas o especialista da “creatinina elevada”. Seu campo inclui proteinúria, hematúria, distúrbios eletrolíticos, hipertensão resistente, doenças hereditárias, glomerulares, tubulares e planejamento de falência renal — uma amplitude que a própria KDIGO destaca ao discutir os objetivos do encaminhamento.
Critérios para encaminhamento ao nefrologista precisam equilibrar precocidade e valor clínico
Encaminhamento precoce é desejável quando cria uma oportunidade real de modificar a trajetória.
Isso pode significar diagnosticar uma glomerulopatia tratável antes de perda irreversível de néfrons, reconhecer uma doença genética, otimizar nefroproteção, tratar complicações, preservar patrimônio vascular ou preparar adequadamente transplante e terapia dialítica.
Entretanto, “mais cedo” não significa “todos, imediatamente”. A KDIGO 2024 avança justamente ao combinar critérios tradicionais com prognóstico quantitativo. O NICE também utiliza risco calculado e critérios clínicos para definir referência. ([Nice][2]) No Brasil, o Ministério da Saúde combina estágio, progressão, proteinúria, alterações urinárias, anatomia e complicações para organizar a atenção especializada. ([Linhas de Cuidado][1])
Esse conjunto aponta para um modelo mais maduro. O paciente com DRC de baixo risco, etiologia conhecida e estabilidade clínica pode permanecer em acompanhamento compartilhado ou primário com manejo baseado em diretrizes. Já aquele com risco elevado, diagnóstico incerto, progressão rápida ou complicações deve chegar ao especialista em tempo suficiente para que a nefrologia faça algo além de preparar uma diálise iminente.
O Manual de Diálise permanece pertinente justamente nesse ponto: o cuidado da DRC avançada não se resume à decisão de iniciar terapia substitutiva; ele inclui reconhecimento de complicações e preparação antecipada para as diferentes possibilidades de tratamento.
Em 2026, portanto, a melhor pergunta sobre critérios para encaminhamento ao nefrologista não é simplesmente:“a TFGe já caiu abaixo de 30?”, e sim “este paciente apresenta risco, complexidade ou uma possibilidade terapêutica para os quais a participação nefrológica agora pode modificar sua trajetória?”
Quando o encaminhamento responde a essa pergunta, ele deixa de funcionar como uma etapa burocrática do sistema e passa a cumprir sua finalidade real: aproximar o conhecimento especializado do momento em que ainda existe oportunidade de mudar o prognóstico.
Referências
DAUGIRDAS, John T.; BLAKE, Peter G.; ING, Todd S. **Manual de diálise**. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
KIDNEY DISEASE: IMPROVING GLOBAL OUTCOMES (KDIGO). **KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease**. *Kidney International*, v. 105, supl. 4S, p. S117-S314, 2024.
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). **Chronic kidney disease: assessment and management. NG203**. London: NICE, 2021, atualização vigente. ([Nice][2])
BRASIL. Ministério da Saúde. **Linha de Cuidado da Doença Renal Crônica em Adultos: planejamento terapêutico e encaminhamento para atenção especializada**. Brasília, DF: Ministério da Saúde. ([Linhas de Cuidado][1])
BRASIL. Ministério da Saúde. **Protocolos de encaminhamento da Atenção Básica para a Atenção Especializada: Endocrinologia e Nefrologia**. Brasília, DF: Ministério da Saúde. ([BVSMS][3])
TANGRI, Navdeep et al. A predictive model for progression of chronic kidney disease to kidney failure. *JAMA*, v. 305, n. 15, p. 1553-1559, 2011.
MAJOR, Rupert W. et al. The Kidney Failure Risk Equation for prediction of end stage renal disease in UK primary care: an external validation and clinical impact projection cohort study. *PLoS Medicine*, v. 16, n. 11, e1002955, 2019.