Biomarcadores na nefrologia: o que mudou nos últimos anos e o que já pode mudar a prática clínica
Poucas áreas da nefrologia ilustram tão bem a distância entre capacidade tecnológica e utilidade clínica quanto o desenvolvimento de biomarcadores renais. Nas últimas duas décadas, centenas de proteínas, peptídeos, moléculas inflamatórias, marcadores de dano tubular, mediadores de fibrose, metabólitos e assinaturas moleculares foram associados a lesão renal aguda, progressão da Doença Renal Crônica ou desfechos cardiovasculares. Entretanto, uma parcela muito menor conseguiu atravessar as etapas necessárias para chegar à prática: padronização analítica, validação externa, definição de contexto clínico, demonstração de valor incremental e, sobretudo, evidência de que conhecer o resultado modifica uma decisão terapêutica relevante.
Essa distinção é fundamental porque a nefrologia já convive há décadas com biomarcadores extraordinariamente úteis. Creatinina sérica, albuminúria e proteinúria são imperfeitas, mas mudaram diagnóstico, estadiamento e prognóstico renal. A cistatina C ampliou a capacidade de estimar a filtração quando a creatinina sofre influência desproporcional da massa muscular. Ao mesmo tempo, novos marcadores passaram a capturar dimensões completamente diferentes: estresse tubular antes da perda funcional, dano epitelial, inflamação, reparo, fibrose e risco de não recuperação após LRA.
A KDIGO 2024 continua a recomendar a TFGe e a albuminúria como pilares da avaliação da DRC, incluindo a relação albumina/creatinina urinária como método preferencial para quantificação inicial da albuminúria. ([KDIGO][1]) Entretanto, o cenário da LRA está em transição ainda mais profunda. O draft da KDIGO 2026 para AKI/AKD propõe um modelo que combina critérios funcionais e biomarcadores estruturais, reconhecendo que lesão renal e redução da filtração não precisam surgir simultaneamente. ([KDIGO][2])
Paralelamente, uma revisão de 2026 da Nature Reviews Nephrology descreve a urina como uma espécie de “biópsia líquida”, capaz de fornecer informações sobre processos de lesão, reparo, inflamação e fibrose muito antes de parte dessas alterações aparecer na TFGe. Apesar desse potencial, os autores também ressaltam que poucos biomarcadores urinários já demonstraram impacto clínico e econômico suficiente para implementação ampla. ([Nature][3])
Portanto, discutir biomarcadores na nefrologia em 2026 exige separar três níveis de maturidade: aquilo que já deve orientar a prática cotidiana, aquilo que possui aplicações clínicas específicas e aquilo que permanece predominantemente no território da pesquisa.
Biomarcadores na nefrologia começam pela diferença entre função renal e dano renal
Um dos avanços conceituais mais importantes foi perceber que “função” e “lesão” não são sinônimos.
Creatinina e cistatina C funcionam, sobretudo, como marcadores de filtração. Quando aumentam, indicam que a capacidade do rim de depurar determinadas moléculas diminuiu. Entretanto, elas não localizam o compartimento afetado, não definem mecanismo e podem permanecer relativamente estáveis durante as primeiras fases de dano tecidual.
Albuminúria ocupa uma posição distinta. Além de representar alteração da barreira glomerular ou, em alguns contextos, incapacidade tubular de reabsorção, possui forte associação prognóstica com progressão da DRC e risco cardiovascular. Ainda assim, também não identifica com precisão a etiologia.
Biomarcadores como NGAL, KIM-1 e L-FABP procuram capturar uma dimensão diferente: lesão ou resposta tubular. Já TIMP-2 e IGFBP7 refletem estresse celular e parada do ciclo celular. CCL14 vem sendo estudado como marcador de persistência de LRA. Outros candidatos, como suPAR, TNFR1 e TNFR2, refletem vias inflamatórias ou de risco sistêmico que podem se associar à progressão renal.
Essa divisão muda a pergunta clínica. Em vez de buscar simplesmente “um marcador melhor que a creatinina”, a nefrologia contemporânea procura marcadores que respondam a perguntas diferentes daquelas que a creatinina já responde razoavelmente bem.
Biomarcadores na nefrologia ainda dependem da creatinina, apesar de suas limitações
A creatinina continua sendo central porque reúne características difíceis de reproduzir simultaneamente: ampla disponibilidade, baixo custo, padronização laboratorial e enorme base prognóstica.
Entretanto, suas limitações são conhecidas. A concentração depende não apenas da filtração glomerular, mas também de geração muscular, dieta, secreção tubular e volume de distribuição. Consequentemente, sarcopenia, amputações, extremos de massa muscular, doença hepática e doença crítica podem alterar de maneira significativa sua relação com a TFG real.
Além disso, na LRA, a creatinina apresenta atraso cinético. A função pode cair abruptamente antes que sua concentração sérica reflita a magnitude da mudança. Revisões recentes continuam apontando justamente essa limitação como uma das principais razões para o desenvolvimento de biomarcadores precoces de AKI. ([PubMed][4])
Outro problema ocorre em estados não estacionários. Equações convencionais de TFGe pressupõem relativa estabilidade da concentração sérica. Quando a creatinina sobe ou cai rapidamente, o número produzido pela equação pode transmitir uma precisão inexistente.
O Manual de Diálise já chama atenção para essa limitação ao discutir a avaliação da função renal em estados de rápida mudança. Em LRA, portanto, a tendência da creatinina e a diurese permanecem mais informativas do que uma TFGe automática interpretada como se a função estivesse estável.
Biomarcadores na nefrologia colocaram a cistatina C em uma posição muito mais relevante
A cistatina C deixou de ser um marcador alternativo de uso relativamente restrito para assumir papel crescente na confirmação e refinamento da estimativa da TFG.
Produzida por células nucleadas e filtrada livremente pelo glomérulo, sofre influência muito menor da massa muscular do que a creatinina. Por isso, pode melhorar a estimativa em indivíduos com sarcopenia, fragilidade, amputação ou composição corporal incomum.
A KDIGO 2024 reforça a utilização combinada de creatinina e cistatina C quando maior precisão da estimativa de TFG influencia decisões clínicas. A equação combinada tende a apresentar desempenho superior ao uso isolado de qualquer um dos dois marcadores em muitos contextos. ([KDIGO][1])
Entretanto, cistatina C também não é um marcador biologicamente neutro. Inflamação, função tireoidiana, corticosteroides e outros fatores podem influenciar seus níveis.
Sua maior utilidade, portanto, aparece quando existe razão para suspeitar de viés da creatinina ou quando a consequência da classificação de TFGe é relevante — por exemplo, decisão medicamentosa, elegibilidade para determinado procedimento ou confirmação de DRC.
O draft KDIGO 2026 para AKI/AKD vai ainda além e propõe incorporar elevação da cistatina C dentro da definição funcional de LRA. Como o documento ainda está em finalização, essa mudança não deve ser tratada como critério definitivo, mas sinaliza o aumento da importância do marcador. ([KDIGO][2])
Biomarcadores na nefrologia consolidaram a albuminúria como marcador prognóstico e terapêutico
Poucos biomarcadores renais mudaram tanto a prática quanto a albuminúria. Seu valor ultrapassa o diagnóstico de doença glomerular. A albuminúria modifica risco de progressão, risco cardiovascular, frequência de acompanhamento e indicação de terapias nefroprotetoras.
A KDIGO 2024 recomenda a relação albumina/creatinina urinária como teste preferencial de avaliação inicial, idealmente em primeira urina da manhã quando possível. ([KDIGO][1])
Além disso, sua importância aumentou com a expansão das terapias cardiorrenais. Bloqueio do SRAA, iSGLT2 e finerenona utilizam albuminúria, em diferentes contextos, como elemento de indicação ou estratificação. Assim, o marcador deixou de ser apenas prognóstico e passou a participar diretamente da seleção terapêutica.
Entretanto, albuminúria apresenta variabilidade biológica relevante. Exercício, febre, hiperglicemia, hipertensão não controlada e infecção podem modificar temporariamente sua magnitude. Por isso, alterações isoladas precisam ser confirmadas quando não existe contexto clínico que explique a mudança.
Além disso, redução da albuminúria pode funcionar como sinal de resposta terapêutica, embora não substitua desfechos clínicos duros.
Biomarcadores na nefrologia ainda encontram no sedimento urinário uma ferramenta de alta informação biológica
Embora nem sempre seja classificado formalmente como “biomarcador”, o sedimento urinário continua oferecendo uma informação fenotípica que muitas plataformas moleculares ainda não reproduzem com a mesma relação entre custo e utilidade.
Cilindros granulares e células tubulares sugerem lesão tubular. Cilindros hemáticos e hemácias dismórficas orientam para origem glomerular. Cristais podem indicar toxicidade, metabolismo ou determinadas condições específicas.
Essa informação não apenas indica que “o rim está lesionado”; pode sugerir onde e como.
Por isso, o avanço dos biomarcadores moleculares não deveria reduzir a importância da microscopia urinária. Ao contrário, a maior precisão provavelmente surgirá da integração entre história, fenótipo urinário, marcadores funcionais e marcadores moleculares.
A ideia de urina como “biópsia líquida” proposta em revisão de 2026 vai justamente nessa direção. Células, proteínas, peptídeos, RNA e metabólitos urinários podem refletir diretamente processos ocorrendo no tecido renal. ([Nature][3])
Biomarcadores na nefrologia tornaram o NGAL um dos marcadores mais estudados de lesão tubular
NGAL — neutrophil gelatinase-associated lipocalin — tornou-se um dos primeiros candidatos amplamente estudados para detecção precoce de lesão tubular.
Seus níveis podem aumentar em plasma e urina após agressão renal, frequentemente antes da elevação substancial da creatinina. Por isso, foi investigado intensamente em cirurgia cardíaca, pacientes críticos, sepse, transplante e nefrotoxicidade.
Revisões recentes continuam classificando NGAL entre os principais marcadores de lesão tubular precoce na LRA. ([PubMed][5]) Entretanto, a especificidade permanece uma limitação. NGAL também pode aumentar em inflamação sistêmica, infecção e outras condições, especialmente no plasma. Sua performance varia conforme população, momento da coleta e ponto de corte utilizado.
Por isso, embora biologicamente atraente, NGAL não se tornou um substituto universal da creatinina. Seu valor parece maior em contextos selecionados e quando combinado com probabilidade pré-teste e outros marcadores clínicos.

Biomarcadores na nefrologia identificaram o KIM-1 como marcador de lesão tubular proximal
KIM-1 — kidney injury molecule-1 — apresenta baixa expressão no rim saudável e aumenta após lesão de células tubulares proximais.
Esse comportamento tornou o biomarcador particularmente interessante para investigação de dano tubular, incluindo nefrotoxicidade e LRA. Revisões de 2025 e 2026 continuam destacando KIM-1 entre os marcadores com forte racional biológico para identificação precoce de lesão tubular. ([PubMed][5])
Além disso, KIM-1 ganhou relevância regulatória em contextos de desenvolvimento de medicamentos, nos quais biomarcadores de lesão tubular podem revelar toxicidade antes da alteração da creatinina.
Na prática clínica rotineira, entretanto, sua adoção permanece limitada por padronização, custo e ausência de evidência de que mensuração sistemática melhore desfechos em populações amplas.
Essa diferença entre valor como biomarcador translacional e valor como teste clínico rotineiro é uma das distinções mais importantes em toda essa área.
Biomarcadores na nefrologia deram aos marcadores de parada do ciclo celular uma aplicação clínica mais concreta
TIMP-2 e IGFBP7 representam um avanço conceitual diferente.
Em vez de detectar diretamente produtos liberados por células lesionadas, refletem estresse tubular associado à parada do ciclo celular G1. O produto urinário [TIMP-2]×[IGFBP7] foi desenvolvido para identificar pacientes críticos com risco aumentado de desenvolver LRA moderada a grave nas horas subsequentes.
Esse tipo de teste não responde à pergunta “o paciente já tem LRA?”. Ele responde melhor a “este paciente está biologicamente sob risco elevado de progredir para LRA?”.
Essa distinção é particularmente importante porque permite, em teoria, aplicar medidas preventivas antes da perda funcional.
O draft KDIGO 2026 reconhece esse avanço ao incorporar de maneira mais explícita modelos de risco e biomarcadores à avaliação da AKI/AKD. ([KDIGO][2])
Entretanto, identificar risco só tem valor quando existe uma intervenção subsequente. Se o teste positivo não modifica revisão de nefrotóxicos, hemodinâmica, monitorização ou exposição a novos insultos, o resultado permanece biologicamente interessante, mas clinicamente pouco útil.
Biomarcadores na nefrologia começaram a diferenciar risco de persistência de LRA
A pergunta após o diagnóstico de LRA também mudou. Não basta saber quem desenvolverá a síndrome; importa identificar quem se recuperará rapidamente e quem progredirá para LRA persistente, AKD ou DRC.
CCL14 ganhou interesse nesse território por sua associação com persistência de LRA grave em pacientes críticos. Outros marcadores, como NGAL, cistatina C, uromodulina e L-FABP, também vêm sendo estudados na transição AKI–CKD.
Uma revisão de 2024 que avaliou biomarcadores circulantes e urinários destacou NGAL, uromodulina, cistatina C e L-FABP entre os candidatos com maior potencial para predizer transição de LRA para DRC. ([PubMed][6])
Essa possibilidade possui implicação clínica importante. Se conseguirmos identificar precocemente quem possui alta probabilidade de não recuperação, será possível selecionar melhor pacientes para seguimento nefrológico intensivo, reconciliação medicamentosa e vigilância pós-alta.
Entretanto, ainda faltam modelos suficientemente validados e integrados à prática para substituir o julgamento clínico.
Biomarcadores na nefrologia estão aproximando a DRC de uma classificação molecular
Na DRC, a limitação atual é semelhante: dois indivíduos com a mesma TFGe e albuminúria podem apresentar processos biológicos distintos.
Um pode ter inflamação dominante; outro, fibrose intensa; outro, doença predominantemente vascular; enquanto outro apresenta lesão glomerular imunomediada. A classificação CGA permanece prognosticamente robusta, mas não captura toda essa heterogeneidade.
Por isso, marcadores urinários e plasmáticos vêm sendo estudados para identificar assinaturas de inflamação, lesão tubular, fibrose e reparo.
A revisão da Nature Reviews Nephrology de 2026 enfatiza justamente proteínas, peptídeos, nucleotídeos e metabólitos urinários como possíveis fontes de informação sobre mecanismos da DRC. Entretanto, os autores destacam que a maior parte das evidências ainda se concentra em associação prognóstica, enquanto dados que demonstram capacidade de orientar terapia permanecem escassos. ([Nature][3])
Essa é uma barreira fundamental. Um biomarcador pode prever progressão com excelente precisão e, ainda assim, não ser clinicamente necessário se TFGe, albuminúria e características clínicas já classificarem adequadamente o risco.
Para justificar implementação, ele precisa acrescentar informação que altere uma decisão.
Biomarcadores na nefrologia colocaram TNFR1 e TNFR2 entre os candidatos para progressão da DRC diabética
Os receptores solúveis do fator de necrose tumoral, principalmente TNFR1 e TNFR2, apresentaram associações consistentes com progressão da DRC em populações com diabetes.
Seu interesse decorre, em parte, da possibilidade de identificar risco de declínio renal além da albuminúria e TFGe. Entretanto, a pergunta clínica permanece: o que fazer diferente diante de um TNFR1 elevado?
Enquanto não houver uma intervenção validada ou uma estratégia de seguimento claramente superior orientada pelo marcador, sua utilidade continuará maior em pesquisa, estratificação e desenvolvimento de terapias do que na rotina ampla.
Esse exemplo resume uma regra importante: predição prognóstica não é equivalente a utilidade clínica.
Biomarcadores na nefrologia mantêm o suPAR como marcador promissor, mas ainda não rotineiro
O receptor solúvel do ativador de plasminogênio do tipo uroquinase, suPAR, ganhou grande atenção por associações com risco de desenvolvimento e progressão da DRC. Níveis elevados também se relacionam a inflamação sistêmica e múltiplos desfechos adversos, o que simultaneamente aumenta seu interesse biológico e limita sua especificidade renal.
Revisões recentes de biomarcadores na LRA e DRC continuam incluindo suPAR entre os candidatos emergentes. ([PubMed][5]) Entretanto, seu papel causal em determinadas doenças renais e sua utilidade como teste clínico universal ainda permanecem temas de debate.
Assim, suPAR ilustra outro princípio: um marcador pode ter grande valor fisiopatológico sem estar pronto para funcionar como exame de rotina.
Biomarcadores na nefrologia estão expandindo o papel da uromodulina
A uromodulina é a proteína mais abundante na urina normal e é produzida principalmente na alça espessa ascendente de Henle.
Diferentemente de vários marcadores que aumentam após dano, concentrações reduzidas de uromodulina urinária ou sérica podem refletir menor massa ou integridade tubular funcional.
Por isso, sua utilização vem sendo estudada na DRC, na LRA e na previsão de recuperação renal.
A revisão sobre transição AKI–CKD publicada em 2024 inclui uromodulina entre os biomarcadores com maior potencial prognóstico nesse continuum. ([PubMed][6])
Ainda assim, não existe indicação consolidada para dosagem rotineira na prática clínica geral.
Seu interesse maior, atualmente, está em oferecer uma dimensão adicional de saúde tubular que creatinina e albuminúria não capturam.
Biomarcadores na nefrologia também estão migrando de moléculas isoladas para painéis
A biologia renal raramente depende de uma única via. Por isso, um dos movimentos mais importantes dos últimos anos é a passagem de biomarcadores individuais para painéis multimarcadores.
Uma combinação pode incluir um marcador funcional, um marcador de lesão tubular, um marcador inflamatório e outro de reparo, criando um fenótipo muito mais rico do que qualquer molécula isolada.
Revisões contemporâneas sugerem justamente que painéis podem melhorar a distinção entre diferentes formas de LRA, prever gravidade e estimar risco de recuperação ou progressão. ([PubMed][6])
Na DRC, a mesma lógica começa a aparecer em plataformas proteômicas e metabolômicas. Entretanto, quanto mais complexo o painel, maior o desafio de interpretabilidade, custo, padronização e validação externa. Além disso, um algoritmo que produz excelente discriminação estatística não necessariamente gera benefício clínico.
Biomarcadores na nefrologia estão sendo transformados por proteômica, metabolômica e transcriptômica
A próxima geração de biomarcadores provavelmente não será composta apenas por exames isolados. Proteômica urinária pode identificar padrões de proteínas associados a mecanismos específicos. Metabolômica detecta alterações em pequenas moléculas relacionadas ao metabolismo renal e sistêmico. Transcriptômica e análise de RNA urinário podem revelar ativação de vias celulares.
Além disso, vesículas extracelulares e microRNAs vêm sendo estudados como portadores de informação molecular derivada do tecido renal. Revisões recentes incluem microRNAs, vesículas extracelulares e diferentes assinaturas moleculares entre os campos emergentes de pesquisa em AKI. ([PubMed][5]) A revisão de 2026 sobre urina e DRC amplia a discussão para nucleotídeos, proteínas, peptídeos e metabólitos, sugerindo que a urina pode oferecer um retrato molecular do rim em tempo real. ([Nature][3])
Entretanto, a transição da omics para a prática exigirá mais do que poder computacional. Será necessário demonstrar que a informação obtida supera aquilo que já é alcançado por dados clínicos, TFGe, albuminúria e diagnóstico etiológico.
Biomarcadores na nefrologia precisam ser avaliados pelo valor incremental, e não pela associação estatística
Um biomarcador pode apresentar associação independente com mortalidade e ainda assim ser inútil na prática.
Imagine um marcador que prevê progressão de DRC, mas cuja informação é quase totalmente capturada pela TFGe e albuminúria. Acrescentá-lo pode melhorar marginalmente um modelo estatístico sem modificar a classificação de risco ou a decisão terapêutica de nenhum paciente.
Por isso, a avaliação precisa incluir discriminação, calibração, reclassificação e impacto clínico. Além disso, um teste só ganha grande valor quando existe uma ação vinculada ao resultado. Esse princípio ajuda a explicar por que creatinina e albuminúria permanecem dominantes. Não são biomarcadores perfeitos, mas existem décadas de evidência conectando seus resultados a diagnóstico, prognóstico e intervenção.
A revisão da Nature Reviews Nephrology de 2026 é explícita ao apontar que a implementação clínica de novos biomarcadores urinários permanece limitada justamente pela escassez de estudos de impacto clínico e econômico. ([Nature][3])
Biomarcadores na nefrologia precisam evitar o risco de diagnosticar mais sem tratar melhor
Sensibilidade diagnóstica maior não é automaticamente benéfica. Se um novo biomarcador detectar “lesão subclínica” em grande parcela de pacientes críticos, surgem perguntas inevitáveis: qual é a especificidade? Qual é a probabilidade de progressão? Qual intervenção deve ser aplicada? Há risco de gerar mais exames, consultas e suspensão de medicamentos sem melhorar desfechos?
Esse problema será particularmente relevante se biomarcadores estruturais forem incorporados formalmente à definição de LRA.
O draft KDIGO 2026 representa um avanço conceitual importante ao reconhecer que dano estrutural pode anteceder disfunção. Entretanto, a própria necessidade de validação regulatória e de indicação clínica específica mostra que não se pretende tratar qualquer biomarcador positivo como equivalente universal de AKI. ([KDIGO][2])
Portanto, quanto mais precoce se torna o diagnóstico, maior precisa ser a precisão sobre aquilo que fazer com ele.
Biomarcadores na nefrologia estão aproximando diagnóstico e prognóstico de uma medicina de precisão
A promessa de longo prazo é atraente. Um paciente com LRA poderá, em teoria, ser classificado não apenas como KDIGO 2, mas como um fenótipo de dano tubular ativo com baixa reserva renal e alta probabilidade de persistência. Outro poderá apresentar alteração funcional predominantemente hemodinâmica com poucos sinais de dano estrutural e maior chance de recuperação. Da mesma forma, um indivíduo com DRC G3b A2 poderá ser subclassificado segundo assinatura inflamatória, fibrose ou risco molecular específico.
Essa informação poderia ajudar a selecionar terapias, priorizar seguimento e enriquecer ensaios clínicos. Entretanto, ainda existe uma grande distância entre essa promessa e a consulta de rotina.
Em 2026, os biomarcadores clinicamente mais sólidos continuam sendo aqueles de sempre — creatinina, TFGe e albuminúria — agora utilizados de maneira mais refinada e complementados pela cistatina C em contextos selecionados. A grande inovação está no fato de que marcadores de estresse e dano já começam a ocupar aplicações específicas na LRA, enquanto plataformas urinárias e moleculares avançam rapidamente na DRC.
Biomarcadores na nefrologia mudaram mais a maneira de pensar o rim do que, até agora, a rotina de exames
Talvez essa seja a melhor síntese do momento atual. O desenvolvimento dos biomarcadores mostrou que a função renal é apenas uma dimensão da doença. Hoje conseguimos pensar separadamente em filtração, dano tubular, inflamação, estresse celular, capacidade de reparo e fibrose. Essa divisão já modificou a pesquisa, o desenho de ensaios e a própria forma como conceituamos LRA e DRC.
A creatinina continuará essencial. A albuminúria continuará central. A cistatina C ganhou um lugar mais claro. NGAL, KIM-1, TIMP-2×IGFBP7, CCL14, uromodulina, suPAR e vários outros candidatos oferecem informações biologicamente relevantes, porém com níveis muito diferentes de maturidade clínica. Revisões de 2025 e 2026 destacam justamente essa diversidade de mecanismos, enquanto também reconhecem barreiras como variabilidade analítica, ausência de pontos de corte harmonizados, custo e validação incompleta. ([Nature][3])
Ao mesmo tempo, a própria KDIGO sinaliza a direção futura. A diretriz geral de DRC ainda se organiza fundamentalmente por TFGe e albuminúria, enquanto a atualização de AKI/AKD já propõe combinar biomarcadores funcionais e estruturais. ([KDIGO][1])
Assim, a pergunta mais importante diante de um novo biomarcador não deveria ser: “ele sobe antes da creatinina?”. A pergunta clinicamente madura é muito mais exigente: “que processo biológico este marcador identifica, em qual população foi validado e qual decisão diferente devemos tomar quando seu resultado está disponível?”
Quando um biomarcador consegue responder às três perguntas, deixa de ser apenas uma medida biologicamente interessante e começa, de fato, a entrar na prática nefrológica.
Referências
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KIDNEY DISEASE: IMPROVING GLOBAL OUTCOMES (KDIGO). **KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease**. *Kidney International*, v. 105, supl. 4S, 2024. ([KDIGO][1])
KIDNEY DISEASE: IMPROVING GLOBAL OUTCOMES (KDIGO). **KDIGO 2026 Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury and Acute Kidney Disease: Public Review Draft**. Brussels: KDIGO, 2026. Documento em fase de finalização. ([KDIGO][2])
KASHANI, Kianoush et al. Recommendations on acute kidney injury biomarkers from the Acute Disease Quality Initiative Consensus Conference. *JAMA Network Open*, v. 3, n. 10, e2019209, 2020.
VLAHOU, Antonia; VANHOLDER, Raymond. Urine as a source of biomarkers and biological knowledge in chronic kidney disease. *Nature Reviews Nephrology*, v. 22, p. 69-84, 2026. ([Nature][3])
**Advances in the diagnosis of early biomarkers for acute kidney injury: a literature review**. 2025. ([PubMed][5])
**Acute kidney injury: detection, risk stratification, and predictive biomarkers**. 2026. ([PubMed][7])
**An overview of circulating and urinary biomarkers capable of predicting the transition of acute kidney injury to chronic kidney disease**. 2024. ([PubMed][6])
DAUGIRDAS, John T.; BLAKE, Peter G.; ING, Todd S. **Manual de diálise**. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.