Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional: segurança na continuidade do cuidado em hemodiálise
Um paciente termina a sessão após apresentar dois episódios de hipotensão, redução da meta de ultrafiltração e dificuldade para manter o fluxo sanguíneo prescrito. A pressão arterial se estabiliza, ele deixa a unidade e o tratamento daquele dia está tecnicamente encerrado. Entretanto, a sessão seguinte começa 48 horas depois. Se as informações relevantes não chegarem de forma clara ao próximo profissional, parte da história clínica construída durante quatro horas de observação desaparece entre um turno e outro.
Esse exemplo mostra por que a comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional precisa ser entendida como componente da segurança assistencial, e não apenas como habilidade relacional.
Na hemodiálise, cada profissional observa uma parte de um processo longitudinal. A enfermagem acompanha a resposta intradialítica e o acesso vascular; o nefrologista integra essas informações à prescrição e à evolução clínica; o nutricionista analisa aspectos alimentares e metabólicos; farmacêuticos, psicólogos e assistentes sociais podem identificar barreiras que também interferem na terapia. Consequentemente, quando esses dados permanecem isolados, a equipe possui várias informações corretas, mas não necessariamente uma compreensão compartilhada do paciente.
O problema se torna ainda mais relevante porque a hemodiálise depende de múltiplas variáveis técnicas e clínicas. O Manual de Diálise aborda monitorização de acesso vascular, adequação, parâmetros laboratoriais, complicações intradialíticas e manejo longitudinal justamente porque a qualidade da terapia não pode ser compreendida a partir de uma única informação ou de uma única sessão.
Além disso, a segurança do paciente vem atribuindo importância crescente à padronização da comunicação. O relatório global de segurança do paciente da OMS de 2024 destaca as transições de cuidado como situações de risco e aponta a padronização dos handoffs e a comunicação bidirecional como estratégias para melhorar a continuidade assistencial. ([Organização Mundial da Saúde][1])
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional começa pela seleção da informação relevante
Uma passagem de informações muito longa pode ser tão problemática quanto uma comunicação insuficiente.
Se a equipe repete toda a história clínica do paciente a cada turno, dados realmente importantes tendem a se perder em meio a detalhes que não modificam a assistência imediata. Por outro lado, quando a comunicação é excessivamente resumida, alterações recentes podem simplesmente desaparecer.
Por isso, a primeira competência está em distinguir aquilo que merece ser transmitido.
Na hemodiálise, alguns dados ganham relevância justamente porque mudaram. Um paciente que mantém há meses determinada pressão arterial não exige a mesma ênfase de outro que começou a apresentar hipotensão nas últimas três sessões. Da mesma forma, uma fístula conhecida e estável não ocupa o mesmo espaço na comunicação que um acesso que passou a apresentar dificuldade de punção, alteração de frêmito ou aumento progressivo das pressões do circuito.
Consequentemente, a informação precisa responder a uma pergunta clínica: o que o próximo profissional precisa saber para cuidar desse paciente com segurança?
A OMS recomenda que handoffs sejam limitados às informações necessárias para continuidade segura do cuidado e que o processo reserve espaço para perguntas e respostas. Além disso, recomenda comunicação padronizada e mecanismos de confirmação das informações transmitidas. ([Who][2])
Portanto, objetividade não significa falar menos. Significa selecionar melhor.
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional precisa destacar mudanças em relação ao padrão habitual
Na assistência longitudinal, a palavra mais importante muitas vezes não é “valor”, mas “mudança”.
Um peso isolado oferece uma informação. Entretanto, ganho interdialítico progressivamente maior ao longo das últimas semanas oferece outra. Da mesma forma, uma pressão venosa dentro dos limites estabelecidos pode ganhar relevância quando está continuamente aumentando em comparação às sessões anteriores.
Essa perspectiva é particularmente útil na hemodiálise porque a equipe acompanha os mesmos pacientes repetidamente. Daugirdas reforça a importância do seguimento longitudinal de parâmetros relacionados à adequação da terapia, estado volêmico, exames e acesso vascular. Portanto, a comunicação entre profissionais deve preservar esse caráter temporal.
Em vez de informar apenas que “a fístula funcionou”, por exemplo, pode ser clinicamente mais relevante comunicar que houve necessidade de duas tentativas de punção, que o fluxo prescrito não foi atingido ou que o paciente relatou mudança no frêmito desde a sessão anterior.
Da mesma forma, “paciente hipotenso” oferece menos contexto do que informar que houve queda progressiva da pressão arterial após determinada fase da ultrafiltração, acompanhada por sintomas e necessidade de intervenção conforme protocolo.
Assim, comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional transforma fatos isolados em uma narrativa clínica que permite reconhecer tendências.
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional pode utilizar ferramentas estruturadas como o SBAR
Em situações clínicas nas quais várias informações precisam ser transmitidas rapidamente, ferramentas estruturadas ajudam a organizar o raciocínio.
O SBAR é uma das mais utilizadas. No modelo difundido pelo programa TeamSTEPPS da Agency for Healthcare Research and Quality, a sigla organiza a comunicação em Situation, Background, Assessment e Recommendation — situação, contexto clínico relevante, avaliação e recomendação ou solicitação. A AHRQ apresenta o SBAR ao lado de outras estratégias, como check-back, call-out e handoff estruturado, dentro de seu modelo de comunicação e trabalho em equipe. ([AHRQ][3])
Em hemodiálise, a ferramenta pode ser particularmente útil quando a enfermagem precisa comunicar uma intercorrência ao nefrologista. A situação identifica aquilo que está acontecendo agora. O contexto recupera informações necessárias para interpretar o evento. A avaliação reúne os dados clínicos e técnicos observados. Finalmente, a etapa de recomendação ou solicitação deixa claro o que o profissional precisa naquele momento, como avaliação médica ou orientação sobre continuidade da terapia.
Entretanto, o valor do SBAR não está em decorar quatro letras. Ele está em reduzir uma comunicação fragmentada na qual informações críticas surgem fora de ordem e a pessoa que recebe a mensagem precisa reconstruir sozinha o quadro clínico.
Por isso, a AHRQ define o SBAR como estrutura padronizada para comunicação da condição do paciente entre integrantes da equipe e inclui ferramentas adicionais de comunicação em circuito fechado para confirmar a informação recebida. ([AHRQ][4])
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional precisa fechar o ciclo da informação
Transmitir uma informação não garante que ela tenha sido compreendida. Essa diferença é especialmente crítica quando a mensagem contém uma orientação que será executada imediatamente. Ruído ambiental, interrupções, pressa, termos semelhantes e pressupostos entre profissionais podem modificar aquilo que foi entendido.
Por isso, a comunicação em circuito fechado possui importância particular na segurança.
No check-back, por exemplo, uma pessoa transmite a informação, quem recebe repete o conteúdo relevante e o emissor confirma se a mensagem foi compreendida corretamente. A AHRQ inclui essa estratégia entre as ferramentas do TeamSTEPPS e a descreve como mecanismo destinado a verificar e validar a informação trocada. ([AHRQ][4])
Em uma unidade de hemodiálise, esse princípio pode ser aplicado a comunicações críticas relacionadas à prescrição, mudanças durante intercorrências e outras orientações que precisam ser executadas sem ambiguidade.
Entretanto, comunicação em circuito fechado não significa repetir mecanicamente todas as conversas da rotina. Ela deve ser utilizada quando o risco de uma interpretação incorreta justifica a confirmação explícita.
Assim, comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional termina somente quando existe segurança de que a mensagem chegou com o mesmo significado com que saiu.
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional é decisiva durante intercorrências
Situações agudas aumentam a necessidade de clareza justamente quando as condições para comunicação pioram.
Alarmes estão ativos, o paciente pode apresentar sintomas, outros profissionais se aproximam da estação e diferentes intervenções acontecem simultaneamente. Nesse cenário, várias pessoas podem falar ao mesmo tempo, enquanto nenhuma possui uma visão integral do evento.
Ferramentas como call-out ajudam a tornar informações críticas audíveis para toda a equipe durante uma emergência. AHRQ descreve essa estratégia como comunicação de dados essenciais em voz clara durante eventos que exigem resposta coordenada. Além disso, huddles podem reunir rapidamente os profissionais quando uma mudança inesperada exige reorganização do plano. ([AHRQ][3])
Na hemodiálise, isso pode ser relevante diante de deterioração hemodinâmica, reação sistêmica, dor torácica, alteração neurológica ou qualquer outra intercorrência na qual diferentes profissionais assumem tarefas simultaneamente.
Nesses momentos, comunicar pressão arterial, frequência cardíaca, sintomas, ultrafiltração acumulada, alterações do circuito e intervenções já executadas evita duplicação e favorece um modelo mental compartilhado da situação.
Além disso, quando o evento termina, a equipe precisa reconstruir o que aconteceu. Um breve debriefing permite discutir sequência dos acontecimentos, resposta assistencial e oportunidades de melhoria. A AHRQ posiciona o debriefing justamente como ferramenta para aprendizagem após eventos ou períodos de trabalho. ([AHRQ][5])
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional precisa qualificar a passagem de plantão
A passagem de plantão representa uma das transições mais frequentes dentro de um serviço.
Quando ocorre de maneira informal, existe risco de que a informação dependa de memória, preferência individual e tempo disponível. Um profissional pode valorizar intercorrências; outro, parâmetros do acesso; enquanto um terceiro concentra a comunicação em exames ou prescrição. Com o passar dos turnos, parte do quadro se perde.
A OMS recomenda padronizar a comunicação durante handoffs entre profissionais e unidades, manter atualizados estado clínico, medicamentos e plano de tratamento e garantir que exista tempo suficiente para perguntas e esclarecimentos. ([Who][2]) O relatório global de 2024 também mostra que, embora muitos países tenham desenvolvido procedimentos para handoffs seguros, a implementação ampla ainda permanece limitada, evidenciando uma diferença importante entre possuir um protocolo e incorporá-lo à prática. ([Iris][6])
Na hemodiálise, um handoff estruturado pode priorizar mudanças clínicas, intercorrências recentes, condições do acesso, dificuldades técnicas, alterações da prescrição, pendências assistenciais e informações que precisem ser retomadas na próxima sessão.
Dessa maneira, comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional protege aquilo que existe de mais valioso na longitudinalidade da diálise: a memória clínica construída ao longo do tempo.

Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional precisa diferenciar registro de comunicação ativa
Prontuário e comunicação verbal cumprem funções complementares, mas não são equivalentes. Registrar uma informação cria rastreabilidade e permite consulta posterior. Entretanto, uma anotação não garante que o profissional que precisa agir imediatamente tenha visto aquilo a tempo.
Por isso, alterações clinicamente relevantes muitas vezes exigem duas ações: documentar e comunicar ativamente. Um paciente que apresentou hipotensão recorrente precisa ter o evento registrado. Entretanto, se essa informação exige reavaliação da prescrição antes da próxima sessão, deixá-la apenas no prontuário pode ser insuficiente.
Da mesma forma, uma mudança relevante no acesso vascular deve constar nos registros, porém também pode exigir contato direto com nefrologista, enfermagem responsável pelo turno seguinte ou equipe de acesso vascular, conforme fluxo institucional. A comunicação ativa deve ser proporcional à urgência e ao impacto potencial da informação.
Consequentemente, o prontuário funciona como memória formal da assistência, enquanto a comunicação ativa garante que aquilo que modifica decisões chegue a quem precisa decidir.
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional precisa conectar diferentes áreas de conhecimento
A hemodiálise é um tratamento tecnicamente complexo, porém muitos fatores que determinam seu sucesso acontecem fora da máquina.
Um ganho interdialítico elevado pode levar a enfermagem a observar dificuldade no manejo de líquidos. Entretanto, essa informação pode precisar ser discutida com nutrição. Faltas recorrentes podem parecer inicialmente um problema de adesão, porém o serviço social pode identificar barreiras de transporte ou trabalho. Dificuldade para utilizar medicamentos pode exigir participação do farmacêutico. Já mudança de comportamento ou abandono progressivo do tratamento pode indicar necessidade de avaliação psicológica.
Portanto, encaminhar informação não significa simplesmente “passar o caso”. A enfermagem precisa contextualizar o achado de maneira que outro profissional consiga incorporá-lo ao próprio campo de atuação.
Além disso, a resposta precisa retornar. Se a nutrição estabelece uma estratégia para determinado problema, a enfermagem que acompanha o paciente várias vezes por semana precisa conhecer o objetivo geral para reforçar mensagens coerentes. Se o nefrologista altera a prescrição devido a intercorrências recorrentes, a equipe assistencial precisa compreender qual mudança ocorreu e quais parâmetros exigirão atenção.
Assim, comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional não funciona como uma sequência linear. Ela cria um ciclo no qual informação circula, produz decisão e retorna à linha de cuidado.
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional precisa evitar mensagens contraditórias ao paciente
Poucas situações enfraquecem tanto a confiança quanto receber orientações diferentes de profissionais da mesma equipe. Um paciente ouve uma recomendação durante a sessão e outra interpretação na consulta seguinte. Posteriormente, um terceiro profissional oferece orientação diferente. Mesmo quando cada mensagem possui alguma justificativa, a ausência de alinhamento cria dúvida sobre qual conduta deve ser seguida.
Esse problema pode ocorrer porque cada área trabalha com uma parte distinta do caso ou porque uma alteração recente ainda não circulou adequadamente. Por isso, temas compartilhados precisam de coerência.
A OMS reforça que comunicação segura envolve manter atualizadas informações sobre estado do paciente, plano de cuidado, medicamentos e mudanças significativas. Além disso, recomenda envolver o paciente e a família no nível de participação que desejem e oferecer informações compreensíveis sobre o plano terapêutico. ([Who][2])
Consequentemente, antes de corrigir uma orientação fornecida por outro profissional diante do paciente, pode ser mais seguro confirmar o contexto e alinhar a equipe. Dessa maneira, o paciente percebe que participa de um plano integrado, em vez de transitar entre opiniões desconectadas.
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional inclui o paciente no fluxo de informação
O paciente não deve ocupar apenas a posição de destinatário final. Ele acompanha seu tratamento em todas as sessões, reconhece mudanças no acesso, conhece sintomas que se repetem e frequentemente consegue identificar alterações antes mesmo da equipe. Além disso, pode perceber contradições entre prescrições ou orientações.
Por isso, ouvir o paciente também é uma estratégia de segurança. A OMS recomenda que pacientes e familiares recebam oportunidades para apresentar dúvidas e preocupações, conheçam os próximos passos do cuidado e participem das decisões no nível que desejarem. ([Who][2])
Na hemodiálise, esse envolvimento pode ajudar a confirmar informações entre turnos. Um paciente pode informar que uma meta foi alterada na sessão anterior, que determinado acesso apresentou problema recente ou que recebeu uma orientação ainda não refletida no fluxo assistencial. Naturalmente, essas informações precisam ser verificadas, porém não devem ser descartadas.
Além disso, a participação fortalece outra barreira: o paciente pode perceber quando um plano parece diferente do que foi discutido anteriormente e perguntar antes que o tratamento prossiga.
Assim, comunicação multiprofissional não acontece apenas sobre o paciente. Ela também acontece com o paciente.
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional precisa enfrentar hierarquias que silenciam preocupações
Uma comunicação tecnicamente estruturada pode continuar insegura quando um profissional não se sente autorizado a falar. Esse problema aparece quando a cultura da equipe transforma questionamento em confronto ou quando uma diferença hierárquica impede que alguém manifeste dúvida sobre uma conduta.
Em segurança do paciente, entretanto, capacidade de expressar preocupação representa uma barreira importante. O TeamSTEPPS trabalha esse aspecto dentro de competências como suporte mútuo, liderança e monitorização situacional, buscando criar equipes capazes de compartilhar modelos mentais, oferecer feedback e intervir quando percebem risco. ([AHRQ][3])
Na prática da hemodiálise, isso significa que um técnico de enfermagem que identifica mudança inesperada no paciente deve conseguir comunicar o enfermeiro; o enfermeiro precisa conseguir escalar sua preocupação ao médico; e qualquer profissional deve ter espaço para questionar uma informação que pareça incompatível com a situação clínica ou a prescrição.
Esse processo exige respeito à responsabilidade técnica de cada categoria, porém não deve confundir hierarquia profissional com silêncio. A segurança melhora quando a equipe consegue discordar de forma estruturada e focada no risco clínico.
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional precisa reduzir ruído nas trocas digitais
Prontuários eletrônicos, mensagens institucionais e sistemas digitais aceleram a circulação de informações. Entretanto, também criam novos riscos.
Uma mensagem pode permanecer sem leitura. Uma informação importante pode ser enviada para um grupo inadequado. Resultados laboratoriais podem aparecer no sistema sem que esteja claro quem é responsável pela ação. Além disso, uma sequência extensa de mensagens pode fragmentar o raciocínio clínico da mesma maneira que uma passagem de plantão desorganizada.
Por isso, tecnologia não substitui governança da comunicação. O serviço precisa definir quais informações podem ser transmitidas digitalmente, quais exigem contato imediato, quais canais são oficiais e como registrar decisões clínicas tomadas a partir dessas trocas.
A OMS destaca justamente a coordenação e a comunicação confiável entre profissionais como componentes necessários à segurança diagnóstica e às transições de cuidado. Em 2024, recomendou que serviços implementassem ferramentas estruturadas de comunicação durante handoffs e mantivessem processos confiáveis de coordenação e encaminhamento. ([Organização Mundial da Saúde][7])
Consequentemente, velocidade só representa ganho quando o canal também oferece confiabilidade.
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional precisa ser treinada e auditada
Comunicação costuma ser tratada como característica pessoal: algumas pessoas “se comunicam bem”, enquanto outras teriam mais dificuldade. Em ambientes de alto risco, essa visão é insuficiente.
A comunicação clínica pode ser treinada como qualquer outro processo assistencial. Equipes podem praticar SBAR, handoffs, comunicação em circuito fechado, huddles e debriefings. Além disso, simulações de intercorrências permitem avaliar se informações críticas circulam adequadamente durante situações de pressão.
A AHRQ estruturou o TeamSTEPPS justamente como programa de treinamento de comunicação e trabalho em equipe em saúde. A versão atual inclui comunicação padronizada, liderança, monitorização da situação e suporte mútuo como competências centrais. ([AHRQ][3])
Depois do treinamento, entretanto, é necessário observar a prática. Uma instituição pode ter um modelo excelente de passagem de plantão no papel e, ainda assim, descobrir que a equipe o utiliza apenas parcialmente. Dessa forma, auditorias, discussão de eventos e feedback permitem verificar se o processo realmente reduz lacunas.
Além disso, falhas de comunicação identificadas em incidentes ou near misses devem alimentar aprendizagem institucional, e não apenas responsabilização individual.
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional precisa produzir um plano compartilhado
A comunicação não termina quando todos possuem as mesmas informações. A etapa seguinte consiste em transformar essas informações em uma compreensão comum sobre o que acontecerá.
Um paciente apresentou hipotensão recorrente. A enfermagem registrou. O nefrologista foi informado. A nutrição conhece o ganho interdialítico. Entretanto, qual será o plano para a próxima sessão? Houve mudança de prescrição? Existe orientação específica para monitorização? Alguma avaliação adicional será realizada?
Sem essa síntese, a equipe compartilha dados, porém não necessariamente um plano. AHRQ relaciona a comunicação ao conceito de shared mental model: integrantes da equipe precisam manter compreensão suficientemente alinhada da situação, das metas e das responsabilidades para coordenar o cuidado. ([AHRQ][3])
Essa ideia é particularmente importante na hemodiálise porque o tratamento se repete. Cada sessão oferece uma oportunidade de avaliar o resultado do plano anterior e ajustá-lo. Consequentemente, uma boa comunicação precisa deixar claro aquilo que permanece igual, aquilo que mudou e aquilo que deverá ser observado em seguida.
Comunicação efetiva entre enfermagem e equipe multiprofissional transforma continuidade em segurança
Nenhum profissional acompanha sozinho toda a jornada do paciente em hemodiálise. As informações atravessam sessões, turnos, consultas, exames, internações e diferentes especialidades. Por isso, a continuidade do cuidado depende da qualidade dessas conexões.
O Manual de Diálise fornece a base técnica para compreender a quantidade de variáveis que precisam ser integradas durante o acompanhamento de pacientes em terapia dialítica. Entretanto, referências específicas de segurança acrescentam outro elemento: conhecimento clínico só consegue produzir cuidado seguro quando circula adequadamente entre as pessoas responsáveis por utilizá-lo.
A OMS recomenda padronização dos handoffs, comunicação bidirecional e confirmação das informações nas transições. ([Iris][6]) A AHRQ, por sua vez, oferece ferramentas como SBAR, check-back, call-out, handoffs, huddles e debriefings para estruturar diferentes momentos dessa comunicação. ([AHRQ][3])
Para a enfermagem nefrológica, isso significa reconhecer uma responsabilidade importante: a equipe não é apenas produtora de dados clínicos. Ela ocupa uma posição central na integração dessas informações ao longo do cuidado. Por isso, comunicação efetiva não deve ser avaliada pelo número de informações transmitidas.
O critério mais relevante é outro: a informação certa chegou à pessoa certa, no momento certo, foi compreendida e produziu continuidade segura para a próxima decisão?
Quando a resposta é sim, comunicar deixa de ser uma atividade paralela à assistência e passa a cumprir aquilo que realmente representa na hemodiálise: uma barreira clínica de segurança.
Referências
AGENCY FOR HEALTHCARE RESEARCH AND QUALITY (AHRQ). **TeamSTEPPS 3.0: Communication Module**. Rockville: AHRQ, atualização vigente. ([AHRQ][3])
AGENCY FOR HEALTHCARE RESEARCH AND QUALITY (AHRQ). **Communication During Transitions of Care**. *Patient Safety Network*. Rockville: AHRQ, 2023. ([PSNet][8])
DAUGIRDAS, John T.; BLAKE, Peter G.; ING, Todd S. **Manual de diálise**. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. **Communication during patient hand-overs: Patient Safety Solution**. Geneva: WHO Collaborating Centre for Patient Safety Solutions. ([Who][2])
WORLD HEALTH ORGANIZATION. **Global Patient Safety Report 2024**. Geneva: WHO, 2024. ([Organização Mundial da Saúde][1])
WORLD HEALTH ORGANIZATION. **Global Patient Safety Action Plan 2021–2030: Towards eliminating avoidable harm in health care**. Geneva: WHO, 2021.