Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026: do estadiamento à nefroproteção baseada em risco
A abordagem contemporânea da Doença Renal Crônica está progressivamente deixando de ser organizada apenas em torno da pergunta clássica — “qual é a taxa de filtração glomerular?” — para responder a outra, clinicamente mais consequente: qual é o risco absoluto deste indivíduo de progressão renal, eventos cardiovasculares, hospitalização e morte, e quais intervenções conseguem modificar esse risco?
Essa mudança não torna a TFGe menos relevante. Ao contrário, reposiciona seu significado dentro de uma avaliação que integra categoria de albuminúria, etiologia, trajetória da função renal, comorbidades cardiovasculares e metabólicas, risco de falência renal, complicações da DRC e contexto individual.
Daugirdas já enfatizava dois princípios que permanecem fundamentais: estabelecer a etiologia da DRC ajuda a compreender sua velocidade de progressão e suas implicações futuras, enquanto o estadiamento precisa incorporar evidências de lesão renal e não apenas a redução da filtração glomerular. O Manual de Diálise também incorporava o sistema KDIGO baseado conjuntamente em TFGe e relação albumina/creatinina urinária, reconhecendo que indivíduos dentro da mesma categoria de filtração apresentam prognósticos muito distintos conforme a albuminúria.
Entretanto, o cenário terapêutico mudou profundamente desde a publicação da quinta edição do manual. Bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona deixou de representar praticamente a única estratégia farmacológica de nefroproteção com evidência robusta. Hoje, inibidores de SGLT2, antagonistas não esteroidais do receptor mineralocorticoide e agonistas do receptor de GLP-1 ampliaram a possibilidade de modificar simultaneamente desfechos renais e cardiovasculares. Revisões contemporâneas já propõem, inclusive, essas classes em conjunto com IECA/BRA como possíveis quatro pilares farmacológicos da proteção cardiorrenal, embora indicações, nível de evidência e elegibilidade não sejam idênticos para todos os fenótipos de DRC.
Em 2026, portanto, manejo adequado da DRC significa diagnosticar etiologia e estágio, quantificar prognóstico, tratar agressivamente risco cardiovascular, instituir terapias modificadoras da doença precocemente e planejar a transição para terapia renal substitutiva ou cuidado conservador antes que a falência renal transforme uma doença crônica previsível em uma emergência.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 exige ir além da TFGe isolada
A classificação CGA — Cause, GFR and Albuminuria — continua sendo o eixo estruturante da avaliação da DRC. Entretanto, a categoria G não deve ocupar sozinha o centro do raciocínio prognóstico.
Dois pacientes com TFGe de 38 mL/min/1,73 m² podem apresentar trajetórias absolutamente distintas. Um indivíduo com albuminúria mínima, função renal estável e ausência de doença cardiovascular não carrega o mesmo risco de outro com relação albumina/creatinina persistentemente acima de 1.000 mg/g, declínio acelerado da TFGe, diabetes e insuficiência cardíaca.
Consequentemente, a albuminúria deixou de funcionar apenas como marcador diagnóstico e assumiu papel essencial na estratificação prognóstica e na seleção terapêutica. A KDIGO 2024 mantém a combinação de categorias G1–G5 e A1–A3 como base para avaliação do risco e recomenda mensuração conjunta de TFGe e albuminúria em indivíduos com DRC ou em risco aumentado.
Além disso, uma variação da TFGe precisa ser interpretada dentro do contexto clínico. A queda inicial após introdução de determinadas terapias hemodinamicamente ativas, sobretudo bloqueadores do SRAA e iSGLT2, não equivale necessariamente à progressão estrutural da doença. Por outro lado, deterioração sustentada, mudança significativa da albuminúria ou aceleração da inclinação da TFGe exigem investigação.
Essa distinção possui implicação prática relevante. Em 2026, interromper precocemente uma terapia nefroprotetora porque ocorreu a alteração hemodinâmica inicial esperada pode retirar justamente o tratamento capaz de preservar função renal no longo prazo.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 incorpora risco absoluto à tomada de decisão
O avanço mais conceitual das diretrizes recentes talvez seja a progressiva incorporação de equações de risco.
Ferramentas prognósticas permitem estimar probabilidade de falência renal em horizonte definido e acrescentam uma dimensão clínica que a classificação por estágios não fornece isoladamente. Em pacientes com DRC G3–G5, modelos validados como a Kidney Failure Risk Equation permitem integrar idade, sexo, TFGe e albuminúria, com versões ampliadas incorporando variáveis adicionais.
Essa perspectiva cria uma mudança importante: dois pacientes classificados como G4 podem demandar intensidade de seguimento, educação e planejamento absolutamente diferentes conforme o risco de evolução.
A própria literatura de 2025 passou a defender explicitamente uma estratégia de risk-directed management, na qual estimativas prognósticas ajudam a priorizar terapias e intensidade de acompanhamento segundo o benefício absoluto esperado.
Portanto, risco não substitui diagnóstico etiológico nem julgamento clínico. Entretanto, acrescenta precisão às decisões sobre frequência do seguimento, encaminhamento, preparação para acesso vascular, avaliação para transplante e discussão de terapias modificadoras da progressão.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 mantém o bloqueio do SRAA como fundamento da nefroproteção albuminúrica
Apesar da expansão farmacológica dos últimos anos, IECA e BRA permanecem fundamentais.
A KDIGO 2024 recomenda bloqueio do SRAA para DRC G1–G4 com albuminúria A3 na ausência de diabetes e também para indivíduos com diabetes e albuminúria A2 ou A3. Além disso, sugere seu uso nos pacientes não diabéticos com A2. A diretriz orienta utilizar a maior dose aprovada tolerada, porque os ensaios que demonstraram benefício empregaram estratégias de dose plena ou máxima tolerada.
Entretanto, a principal mudança prática está talvez na estratégia de manutenção.
Creatinina e potássio devem ser avaliados após início ou aumento de dose; contudo, hipercalemia não deve levar automaticamente à suspensão do bloqueador. Sempre que clinicamente possível, medidas destinadas ao controle do potássio podem permitir manutenção da terapia. Da mesma maneira, a KDIGO orienta continuar IECA ou BRA mesmo quando a TFGe cai abaixo de 30 mL/min/1,73 m², desde que não existam situações clínicas que justifiquem redução ou retirada.
Essa orientação contrasta com uma prática historicamente comum de retirar bloqueadores do SRAA apenas porque a função renal atingiu estágios avançados.
Em 2026, portanto, o raciocínio deve se concentrar no equilíbrio entre benefício cardiorrenal, potássio, pressão arterial, sintomas e evolução da função renal, e não em um limiar arbitrário de TFGe.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 coloca os iSGLT2 no centro da estratégia nefroprotetora
Poucas mudanças terapêuticas modificaram tanto o manejo da DRC na última década quanto os inibidores do cotransportador sódio-glicose 2.
Inicialmente desenvolvidos como agentes hipoglicemiantes, os iSGLT2 passaram a demonstrar redução consistente de progressão renal e desfechos cardiovasculares em populações com e sem diabetes. Consequentemente, sua utilização já não pode ser interpretada somente pelo efeito sobre HbA1c.
A KDIGO 2024 recomenda iSGLT2 em adultos com DRC, TFGe ≥20 mL/min/1,73 m² e relação albumina/creatinina ≥200 mg/g, além de pacientes com insuficiência cardíaca independentemente da albuminúria. Também recomenda seu uso em indivíduos com diabetes tipo 2 e DRC com TFGe ≥20 mL/min/1,73 m² e sugere tratamento em determinados adultos com TFGe entre 20 e 45 e albuminúria abaixo de 200 mg/g.
Além disso, uma queda reversível inicial da TFGe após início não constitui, isoladamente, indicação para retirada. Uma vez iniciada, a terapia pode ser mantida mesmo abaixo de 20 mL/min/1,73 m², desde que seja tolerada e que o paciente ainda não tenha iniciado terapia renal substitutiva.
Naturalmente, segurança permanece essencial. Situações de jejum prolongado, cirurgia ou doença crítica aumentam preocupação com cetose e podem justificar suspensão temporária conforme contexto clínico.
O ponto central, entretanto, é outro: em 2026, deixar de avaliar elegibilidade para iSGLT2 em um paciente com DRC representa perder uma das principais oportunidades atuais de modificar sua trajetória cardiorrenal.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 amplia o papel dos antagonistas não esteroidais do receptor mineralocorticoide
A ativação persistente do receptor mineralocorticoide participa de mecanismos inflamatórios e fibróticos que contribuem para progressão renal e risco cardiovascular. Nesse cenário, a finerenona consolidou uma nova estratégia terapêutica especialmente relevante para DRC associada ao diabetes tipo 2.
A KDIGO 2024 sugere um antagonista não esteroidal do receptor mineralocorticoide com benefício renal ou cardiovascular demonstrado para adultos com diabetes tipo 2, TFGe superior a 25 mL/min/1,73 m², potássio sérico normal e albuminúria persistente acima de 30 mg/g apesar de dose máxima tolerada de bloqueador do SRAA. Além disso, a diretriz admite associação entre nsMRA, bloqueador do SRAA e iSGLT2.
Entretanto, o monitoramento do potássio ganha relevância central.
A indicação também precisa respeitar a população estudada. Os dados mais estabelecidos para finerenona na DRC são derivados de indivíduos com diabetes tipo 2; portanto, extrapolar automaticamente os resultados para DRC não diabética ainda exige cautela.
Esse ponto é particularmente atual porque a própria KDIGO informa, em 2026, que uma atualização focal do capítulo de progressão da DRC já está em andamento, justamente para incorporar evidências emergentes sobre iSGLT2, terapias baseadas em GLP-1 e nsMRA, inclusive em populações sem diabetes.
Assim, este é um dos campos nos quais o manejo da DRC permanece dinamicamente em atualização.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 reposiciona os agonistas do receptor de GLP-1
Os agonistas de GLP-1 inicialmente ganharam espaço pela redução de HbA1c, peso e risco cardiovascular. Entretanto, a publicação do FLOW modificou substancialmente a discussão renal.
O ensaio randomizou 3.533 pacientes com diabetes tipo 2 e DRC para semaglutida ou placebo. Ao longo de mediana de 3,4 anos, o desfecho renal/cardiovascular primário ocorreu com frequência 24% menor no grupo semaglutida, com hazard ratio de 0,76. Além disso, a inclinação anual da TFGe foi menos negativa, o risco de eventos cardiovasculares maiores diminuiu 18% e a mortalidade por todas as causas caiu 20%.
Esses dados reforçaram uma leitura diferente da classe.
Em pacientes com diabetes, obesidade, doença cardiovascular e DRC, as fronteiras entre controle metabólico e nefroproteção tornam-se progressivamente menos nítidas. Em janeiro de 2026, uma revisão da Nature Reviews Nephrology já descrevia os GLP-1 RA dentro do contexto mais amplo da síndrome cardiovascular-renal-metabólica e discutia a próxima geração de terapias hormonais metabólicas para DRC.
Entretanto, o FLOW também exige interpretação cuidadosa: a utilização concomitante de outras terapias cardiorrenais contemporâneas não reproduziu necessariamente o cenário de polifarmacoterapia hoje possível em muitos pacientes. Portanto, a magnitude exata do benefício incremental quando SGLT2, bloqueio do SRAA, nsMRA e GLP-1 RA são combinados ainda representa uma das questões mais relevantes da prática contemporânea.

Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 exige controle pressórico dentro de uma estratégia global de risco cardiovascular
A DRC deve ser compreendida simultaneamente como doença renal e amplificador de risco cardiovascular.
Consequentemente, controle pressórico permanece uma das intervenções fundamentais. Entretanto, a pressão arterial não deve ser discutida separadamente da albuminúria, do estado volêmico, das comorbidades cardiovasculares e das terapias utilizadas.
Além disso, padronização da medida importa. Alvos derivados de ensaios que utilizam técnicas padronizadas de aferição não podem ser automaticamente comparados a medidas casuais obtidas em condições diferentes.
Nesse contexto, uma estratégia excessivamente agressiva pode produzir hipotensão sintomática, quedas ou intolerância farmacológica, sobretudo em idosos frágeis. Por outro lado, aceitar hipertensão persistentemente inadequada em pacientes albuminúricos pode acelerar tanto risco renal quanto cardiovascular.
Portanto, o conceito contemporâneo não é simplesmente atingir um determinado número, mas alcançar controle pressórico dentro de um plano nefroprotetor tolerável e individualizado.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 transforma a anemia em um campo novamente atualizado
A anemia merece destaque especial porque, diferentemente de vários outros componentes deste artigo, recebeu uma nova diretriz KDIGO já em 2026.
A KDIGO 2026 substitui a orientação de 2012 e reorganiza investigação, reposição de ferro, agentes estimuladores da eritropoiese e inibidores da prolil-hidroxilase do HIF ao longo dos diferentes estágios de DRC.
Além disso, a diretriz recomenda que a frequência mínima de avaliação aumente conforme a gravidade da DRC: pelo menos anualmente em G3, duas vezes ao ano em G4 e a cada três meses em G5 ou diálise, com intensificação diante de sintomas ou alterações clínicas.
Em pacientes G5 em hemodiálise com anemia, a diretriz sugere iniciar ferro quando ferritina for ≤500 ng/mL e TSAT ≤30%, além de favorecer uma estratégia proativa de reposição intravenosa nesse cenário. Por outro lado, o documento reconhece incertezas importantes sobre limiares e metas ideais e orienta individualização diante de infecção, ferritina elevada ou contextos específicos.
Essa atualização ilustra bem como o manejo moderno da DRC precisa funcionar: diretrizes gerais estruturam a prática, mas complicações específicas podem receber novas recomendações antes que todo o documento de DRC seja novamente revisado.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 precisa antecipar as complicações, e não apenas tratá-las quando aparecem
Anemia, acidose metabólica, distúrbio mineral e ósseo, hipercalemia, sobrecarga volêmica e desnutrição não surgem simultaneamente nem se distribuem igualmente entre pacientes com a mesma TFGe.
Daugirdas já tratava essas complicações como parte essencial do cuidado longitudinal e enfatizava monitorização de hemoglobina, ferro, bicarbonato, metabolismo mineral e outros parâmetros à medida que a DRC avançava.
Entretanto, em 2026, a avaliação precisa ser cada vez mais fenotípica.
Uma queda do bicarbonato não deve gerar apenas reposição automática; etiologia, alimentação, progressão e tolerabilidade precisam ser consideradas. Da mesma forma, PTH isolado não descreve todo o DRC-MBD e deve ser contextualizado com cálcio, fósforo, fosfatase alcalina, tendência laboratorial e exposição terapêutica.
Além disso, a hipercalemia adquiriu uma nova importância prática porque pode limitar terapias que prolongam a proteção renal. Consequentemente, tratar potássio de forma ativa para preservar bloqueio do SRAA ou nsMRA, quando adequado, pode representar uma estratégia diferente de simplesmente retirar o medicamento responsável.
Essa abordagem desloca o manejo de complicações de um modelo reativo para outro que busca preservar simultaneamente segurança e terapias modificadoras da doença.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 exige revisar toda a farmacoterapia pela função renal
Quanto mais a função renal diminui, maior se torna o impacto da DRC sobre farmacocinética, farmacodinâmica e risco de toxicidade.
Consequentemente, toda consulta de progressão deveria incluir algum grau de medication stewardship. Isso envolve revisar necessidade de ajuste de dose, identificar nefrotóxicos evitáveis, avaliar interações, reconhecer duplicidades e reconsiderar medicamentos cuja relação risco-benefício mudou.
Além disso, a introdução das novas terapias cardiorrenais aumentou a necessidade de compreender efeitos hemodinâmicos combinados. Um paciente tratado simultaneamente com bloqueador do SRAA, iSGLT2, diurético e nsMRA pode obter proteção substancial; entretanto, volume, pressão, função renal e potássio exigem monitorização compatível com esse regime.
Portanto, polifarmacoterapia não deve ser confundida com prescrição indiscriminada. O conceito é terapia combinada orientada por evidência e acompanhada por monitorização apropriada.
A segurança medicamentosa será aprofundada posteriormente em um artigo específico desta trilha.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 requer investigar causa antes que o diagnóstico se torne apenas “DRC”
Quanto mais avançada a doença, maior o risco de a etiologia original desaparecer atrás do rótulo “DRC estágio 4” ou “DRC estágio 5”.
Entretanto, determinar a causa continua relevante.O próprio Daugirdas ressalta que a etiologia pode ajudar a explicar a velocidade de progressão e influenciar decisões futuras, inclusive pelo risco de recorrência de determinadas doenças após transplante renal.
Além disso, a expansão de testes genéticos e a melhor definição de doenças glomerulares transformaram a importância do diagnóstico etiológico em diversos contextos. Uma doença classificada historicamente como “hipertensiva” pode, após avaliação mais detalhada, revelar etiologia hereditária, glomerular ou tubulointersticial.
Consequentemente, idade, história familiar, hematúria, magnitude e padrão da proteinúria, velocidade de progressão, alterações extrarrenais e achados de imagem devem continuar orientando investigação. Em 2026, portanto, a abordagem de DRC deve resistir à tentação de transformar a redução da TFGe no diagnóstico final.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 aproxima nefrologia, cardiologia e endocrinologia
A própria evolução das terapias tornou inviável manter fronteiras rígidas entre especialidades.
SGLT2, GLP-1 RA, antagonistas do receptor mineralocorticoide e bloqueio do SRAA atuam simultaneamente sobre risco renal, cardíaco e metabólico. Dessa forma, um medicamento inicialmente prescrito pelo endocrinologista pode modificar progressão renal; uma terapia iniciada pelo nefrologista pode reduzir hospitalizações por insuficiência cardíaca; e o cardiologista pode ser responsável por manter uma estratégia que protege simultaneamente o rim.
Esse fenômeno explica a crescente utilização do conceito cardiovascular-renal-metabólico.
Além disso, ele evidencia um desafio prático: se cada especialidade interpreta uma pequena variação de creatinina ou pressão exclusivamente a partir de seu próprio objetivo terapêutico, medicamentos benéficos podem ser interrompidos desnecessariamente.
Portanto, cuidado compartilhado em 2026 exige não apenas encaminhamento entre especialistas, mas coerência terapêutica entre eles.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 antecipa o planejamento da falência renal
O desenvolvimento de terapias eficazes para retardar progressão não eliminou a necessidade de planejar terapia renal substitutiva. Ao contrário, a melhora da prognosticação permite tornar esse planejamento mais racional.
A decisão de iniciar diálise não deve depender exclusivamente de um determinado valor de TFGe. Sintomas urêmicos, distúrbios refratários de volume, alterações eletrolíticas ou ácido-básicas, estado nutricional e condição clínica global precisam orientar a decisão.
Entretanto, preparar o paciente não pode começar no momento em que a indicação se torna imediata. A trajetória de risco deve orientar educação sobre transplante, hemodiálise, diálise peritoneal e cuidado conservador; avaliação para transplante preemptivo deve ocorrer quando pertinente; e planejamento do acesso vascular precisa respeitar a probabilidade individual de realmente necessitar hemodiálise.
Essa lógica conecta o manejo moderno ao conceito de Life-Plan difundido pelas diretrizes de acesso vascular: decisões técnicas atuais precisam considerar a trajetória renal futura do paciente. O Manual de Diálise já separava explicitamente o manejo dos estágios 4 e 5 da DRC do preparo para transplante, diálise ou cuidados conservadores, reforçando que essa transição deve ser deliberadamente planejada.
Atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 substitui a lógica de “esperar piorar” por intervenção precoce
Talvez a principal transformação do manejo da DRC não esteja em uma única nova molécula. Está no momento em que decidimos agir. Durante muitos anos, parte significativa da nefrologia clínica concentrava maior intensidade de intervenção nas fases mais avançadas, quando anemia, retenção volêmica, distúrbio mineral ósseo e sintomas urêmicos já dominavam a consulta.
Hoje, o benefício potencial mais significativo pode estar anos antes. Identificar albuminúria, controlar pressão adequadamente, utilizar bloqueio do SRAA quando indicado, introduzir iSGLT2 precocemente, considerar nsMRA no fenótipo apropriado, incorporar GLP-1 RA em pacientes elegíveis, controlar risco cardiovascular e interromper exposições nefrotóxicas pode modificar a inclinação da trajetória renal antes que a TFGe atinja níveis críticos.
Essa mudança também explica por que a KDIGO 2024 enfatiza classificação, prognóstico e manejo orientado ao risco, enquanto a literatura de 2025 e 2026 discute terapias combinadas e estratificação prognóstica como os próximos passos da prática.
Ao mesmo tempo, a ciência continua avançando. Em setembro de 2026, a própria KDIGO reconhece formalmente que sua diretriz geral de 2024 permanece vigente, porém já necessita de uma atualização focal para incorporar dados emergentes sobre terapias que modificam a progressão da doença.
Esse fato é particularmente ilustrativo. O manejo da DRC deixou de ser um conjunto relativamente estático de recomendações revisto a cada década. Tornou-se um campo no qual grandes ensaios podem modificar a prática em poucos anos.
Por isso, atualização no manejo da Doença Renal Crônica em 2026 significa integrar três dimensões simultaneamente: diagnóstico etiológico preciso, prognóstico quantitativo e utilização precoce e racional de terapias modificadoras do risco cardiorrenal.
O objetivo clínico não é apenas adiar a diálise. É reduzir insuficiência renal, eventos cardiovasculares e mortalidade enquanto se preserva função, autonomia e possibilidade de planejamento terapêutico.
Essa talvez seja a mudança mais relevante para a nefrologia contemporânea: a DRC não deve mais ser acompanhada apenas observando sua progressão. Em uma parcela crescente dos pacientes, existem instrumentos para tentar modificar ativamente sua trajetória.
Referências
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